#30 a moda é arte: o leilão é tech
o que acontece com a credibilidade do Met Gala quando quem paga a conta não pertence ao universo que ele existe pra celebrar
antes mesmo de nós sentarmos em frente a TV com os nossos pijamas furados pra julgar os looks que passaram pelas escadas do Met Gala na última segunda-feira, algumas polêmicas e decisões bem duvidosas já estavam sendo tomadas no evento. vem aqui que eu vou te explicar:
o que é o met gala e por que ele importa
formalmente, o Met Gala é o Costume Institute Benefit, o principal beneficente do departamento de moda do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. o Costume Institute não se beneficia do patrocínio geral do museu e precisa levantar seu próprio dinheiro. desde 1948 ele faz isso com uma festa.
Anna Wintour assumiu a cadeira em 1995 e transformou o evento numa das operações de capital cultural mais sofisticadas da história recente da moda. a lógica era moda celebrando moda: marcas de luxo patrocinam, celebridades compram visibilidade, o museu preserva sua coleção de indumentária — e todo mundo sai com algo que dinheiro sozinho não compra.
mas o que tornava o Met Gala realmente poderoso não era o dinheiro. era a lista. a sala era preenchida com a lista de convidados mais exclusiva da indústria — designers, editores, artistas, celebridades com trajetória e posicionamento dentro do universo da moda. a exclusividade do evento não era só de preço. era de pertencimento a um ecossistema específico.
o tema deste ano propõe algo curatorialmente legítimo: reunir quase 400 peças de vestuário em diálogo com pinturas, esculturas e objetos de outros departamentos do Met, argumentando que moda é uma forma de arte incorporada, que habita o corpo e o tempo de um jeito único. é uma tese interessante. o problema é que ela precisa ser validada por pessoas com credibilidade pra fazê-lo.
moda é arte? quem decide isso?
o argumento de que moda é arte não se sustenta sozinho. ele precisa de um ecossistema que o valide — críticos, curadores, criadores, pessoas que constroem e habitam esse universo. o met gala sempre foi, entre outras coisas, uma reunião desse ecossistema. não era só uma festa. era uma afirmação coletiva de que moda importa o suficiente pra justificar tudo aquilo.
a jornalista Amy Odell, descreve bem o que o evento representava em seu auge: em 2003, Tom Ford co-anfitriava com Nicole Kidman, a Gucci patrocinava, e o que estava em jogo era o nível de gosto na sala. a exclusividade visual, o capital cultural concentrado naquele espaço — isso era o produto. isso era o que conferia ao evento a autoridade de dizer o que era relevante em moda.
o Met Gala sempre foi transacional. a diferença é que a transação acontecia dentro do universo da moda — e isso é o que conferia credibilidade ao que ele validava.
tá pronta pro plot twist?
os bezos, a tech e o que está em jogo
na última segunda-feira, Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos foram os honorary co-chairs do Met Gala. investiram um valor estimado em 10 milhões de dólares, e pela primeira vez na história do evento, o lead sponsor não é uma marca de moda, mas uma pessoa física. ou melhor, duas delas.
isso não é um julgamento sobre gosto pessoal. é uma questão estrutural. Amy Odell aponta algo que revela o mecanismo inteiro: os ingressos ficaram tão caros que praticamente nenhuma marca de moda consegue mais pagar. a Gucci, patrocinadora em 2003, fez US$ 1,5 bilhão em receita no último trimestre reportado. a Nvidia cresceu US$ 68 bilhões no mesmo período. o patrimônio estimado de Bezos ultrapassa US$ 270 bilhões.
a moda perdeu a capacidade financeira de acompanhar a inflação do seu evento mais importante. e quando você não consegue mais pagar pela mesa, você perde o controle da narrativa — e da curadoria.
a tech entrou no Met Gala progressivamente: Amazon em 2012, Yahoo em 2016, Apple em 2017, Instagram em 2021 e 2022, Tiktok em 2024. o que os executivos de tecnologia entendem, segundo Odell, é que há valor real em ser visto como uma plataforma legítima para influência de moda. as big techs se beneficiam de ser percebidos como parte desse universo. e as doações atraem defensores dispostos a apontar o quanto contribuíram para uma boa causa.
o que a tech compra no met gala não é filantropia — é legitimidade cultural. o problema é que quando você vende legitimidade em volume suficiente, ela para de existir.
quando o lead sponsor é alguém de fora do universo da moda, o que acontece com o “capital cultural que o dinheiro não compra?”, a legitimidade da arte a da curadoria proposta e celebrada pelo evento?
o que o Met Gala ainda faz por nós?
essa é a pergunta que fica depois de tudo. o Met Gala sempre foi, em algum nível, um leilão. convites eram moeda, patrocínios eram negociação, visibilidade tinha preço.
mas a transação funcionava porque estava contida dentro de um ecossistema com critérios próprios de relevância. você precisava ser reconhecido por esse universo específico pra estar na lista. o dinheiro abria portas, mas não era o único critério — e talvez nem o principal.
o que 2026 expõe é que além da credibilidade ter sim seu preço, pelo menos para “um lugar à mesa”. a moda exposta nas escadas do Met está cansada, xoxa, apática, longe estão os dias onde tínhamos pelo que esperar em um Met Monday, vamos ter que engolir uma Lauren Sánchez de Schiaparelli mesmo.
deixo abaixo alguns tiktoks analisando o Met desse ano que eu colhi nos últimos dias:
Enable 3rd party cookies or use another browser
Enable 3rd party cookies or use another browser

Enable 3rd party cookies or use another browser
por hoje é só, te vejo na próxima edição?
beijos,
andressa.










Total! E dá pra aprofundar ainda mais, rolou protesto da galera que trabalha na Amazon perto do evento, por exemplo. Sinto que esse Met Gala de 2026 ainda dará muito pano pra manga, muitas discussões e análises não só de moda e tech, mas do zeitgeist.
Excelente texto, diva!